... me interessa pensar a composição: os elementos de composição e os modos como eles se articulam em uma cena, em uma instalação ou na vida... 

Os distintos modos de articulação dos elementos são produtores de sentido... e cada artista tem suas tendências no desenvolvimento de seus trabalhos, constituindo sua poética, ou seja, modos de fazer e de pensar seu conjunto singular de questões, de desejos,...

Não faz muito tempo a dança começou a tratar com o termo "dramaturgia". Que entrou em vigor de moda. E alguns usuários do termo expelem arrogância como conhecedores de algo intangível. Foi nesse processo de luta micropolítica que comecei a usar o termo "dramaturgia da dança": numa disputa de sentido que implicava relações de poder quanto aos modos de criação do outro. Porque as dramaturgias não são entes abstratos... elas emergem de um terreno muito concreto relativo às possibilidades de espaços físico, ao tempo cronológico, ao acesso ao saber, ao empoderamento, à chance de desejar, às técnicas adquiridas, ao material de trabalho. E por isso, e fundamentalmente, estão profundamente vinculadas aos aprendizados realizados com as pessoas com as quais dividimos nosso fazer: uma diretora, uma professora, uma dramaturgista e com as parceiras de cena. 

É preciso dizer ainda que minha perspectiva de criação tem como recorte a noção de um autor/co-autor. Que a dança e a respectiva composição de que trato não comporta um pensamento no qual o artista não assume um lugar ativo de criação (com ou sem diretor/coreógrafo). Do que decorre que os modos de relação entre os parceiros devém extremamente relevante nessa perspectiva política de potencialização e empoderamento do outro.

No campo da arte assumi muitas vezes o papel de interlocutora de processos de criação, algo borrado entre docente e diretora-coreógrafa das poéticas alheias: como professora, como tutora em laboratórios de criação, em residências ou como parceira de colegas.

Dessa condição de co-criação e orientação de um (co)autor, eu desenhei um projeto de pesquisa de doutorado (ainda não enviado) que investiga o que chamei de "Dramaturgismo" -  uma maquínica metodológica de criação. Um estudo de olhar sistêmico no qual as dramaturgias são vistas não apenas como elementos e parâmetros de composições,  mas também como fruto das micropolíticas das relações do artista. Essa pesquisa pensa a dramaturgia como resultante de um ambiente que triangula artista-linguagem-interlocutor.

Diz assim no projeto (e me repito):

"Esta pesquisa debruça-se sobre a composição dramatúrgica em ambiente mediado por interlocução poética na dança contemporânea, investigando a possibilidade de meta-estabilizar uma maquínica metodológica de criação na perspectiva (co)autoral. (...) A proposta é entender não apenas perspectivas de linguagens, mas abordar o tema partir  do sistema de relações que triangula entre a linguagem, o artista e o interlocutor poético. (...)"

Da minha hibridação, entre linguagens e entre artista-e-docente, o que coincide é a composição, ancorada numa perspectiva política de que cada pessoa pode desenvolver a condição de máquina desejante, de autonomia e empoderamento na construção de sua poética, numa matriz subjetiva que permita a capacidade de olhar e estar em comunidade.