MOLpA #num1

PROJETOS DE VENTO

Mobilidade de Objetos Leves por Ar

(CRIATURAS e os coreografismos coletivos)

Proposta Residência Sala Vazia

 

sinopse 

Uma proposta de encontros através da produção de instalação e outros dispositivos de estar - café com leite, palestra, jam session, etc-, num desejo de abrir espaços para pensar e experimentar a problemática da produção de coletividades, apostando na necessidade da alocentria na construção do olhar de comunidade, que precisa ser muito mais que um conceito, precisa ser um dispositivo aestético dos corpos humanos no mundo. Esse desejo, toma como caminho os eixos matéria-movimento-espaço, sendo matéria: homem, bicho e coisa.

apresentação

“Pedras sonhando pó na mina

Pedras sonhando com britadeiras 

Cada ser tem sonhos a sua maneira”

Ney Mato Grosso

 

CRIATURAS e os coreografismos coletivos é como venho chamando em meu trabalho, uma dinâmica de pensamento-e-práticas calcadas numa perspectiva Simondoneana* de deslocamento do homem como centro de todas as relações, entendendo as individuações de vivos e não-vivos como metaestabilizações de parametrizações distintas de construtura de cada ser. Esse lugar de ver, tece o entendimento de um olhar sistêmico de co-habitação que quer chegar a desenhar dispositivos de pensar/experimentar/desenvolver - no humano - o olhar de comunidade como uma aposta de condição perceptiva-política para a construção de uma coletividade de poderia existir-se potente, na aposta das diferenças. Para a residência, essa pesquisa se propõe a experimentar-se a partir (1-) de encontro de apresentação do projeto; (2-) realização de uma instalação na linha MOLpA (mobilidade de objetos leves por ar); (3-) encontro p’ra tomar café com leite e conversar e/ou trabalhar na instalação; (4-) oficina para pessoas, trabalhando corpo-matéria-espaço a partir dessas questões; (5-) apresentação da instalação final; (6-) Jam Session aberta com pessoas da oficina e outras, para improvisações compositivas como coletivo temporário.; (7-) Palestra: partilha aberta de elaborações dessa idéias que fomentam a realização desse desejo artístico-político.

* Gilbert Simondon - filósofo francês vinculado a estudos de técnica, tecnologia, cibernética, etc.

 

linha de pesquisa

Arte Digital e Tecnologia - (…) tecnologias digitais e analógicos, de reciclagem de eletrônicos, programação criativa, espectro aberto, arte colaborativa e ciência, bioarte, cybercultura, arte digital, cultura hacker, cyberactivismo, hackerativismo)”

Artes Visuais ((…) instalação (…));

Dança: contemporânea [(os materiais dançam); a oficina com gente é pensada na perspectiva da dança - movimento, percepção e consciência coletiva]

Micropolíticas- [fundamentos do pensamento acerca das relações de poder.]

atividade pedagógica de formação 

(1-) Caixa de pandora: conversa sobre a pesquisa e intenções de ação para seu desenvolvimento na residência.

(2-) Pesquisa da matéria: elaboração de um sistema de ventilação e estudos de mobilidade de objetos leves. Inclui um trabalho de pesquisa técnica acerca da produção de movimento eólico e posterior investigação do comportamento de materiais leves naquele ambiente. 

[notas pra mim: Quais objetos leves serão utilizados? Interessa realizar uma coleta de materiais do entorno do prédio?

Interessa filmar o movimento dos objetos em movimento e projetar no meio do círculo com os objetos em movimento (ou antes ou depois)? [isso acrescenta ao trabalho? O que isso produz como pensamento e forma?]]

 

(3-) Oficina de gente: realização de um mini-curso de 3 turnos referenciados na problemática do desenvolvimento da alocentria e do olhar-de-comunidade. Esse momento eu proponho que seja vinculado a experimentos de corpo, espaço e materiais, numa perspectiva de coletivo temporário.

(4-) Café-com-leite: parte dos meus processos de trabalho em arte tem sido realizados numa casinha sem forro na Vila Demétrio, Benfica. Regado a café com leite, discutimos projetos, processos, conceitos e também antecedemos as práticas de criação na pequena cozinha ou no chão de areia. Durante a residência, gostaria de manter o hábito (no Dona Bela) e abrir o processo para o acompanhamento de alguns artistas com os quais cruzei quando professora ou parceira, para estarem na montagem, bater um papo e tomar café com leite.

(5-) Palestra: partilha aberta de elaborações dessa idéias que fomentam a realização desse desejo artístico-político, postos após a realização da experimentação com a matéria e em conjunto com apresentação do lugar onde consegui chegar como forma instalativa. Convidado: professos Clemilson Santos, gestor do Laboratório de Computação Física da UFC, parceiro do projeto. 

(6-) Apresentação da instalação: abertura pública do momento do trabalho.

(7-) Jam Session: um encontro entre as pessoas que participaram da oficina e aberta à participação de outras pessoas a jogar em improvisações compositivas como coletivo temporário.

 

 

 

 

nota sobre “o público”

Esse trabalho tem compromisso de circulação na periferia da cidade de Fortaleza, do que decorre uma articulação para circulação nos Cucas e no centro Centro Cultural Bom Jardim - CCBJ.

Também mobiliza um circuito das artes cênicas (circo e dança).

                    

justificativa

Como viver juntos?

 

Essa pergunta que transita aqui e ali no circuito artístico não deixou ainda de persistir e de ser um grande problema em minhas investigações docente e artística nas linguagens onde ancoro minha hibridação.

Atuo a partir da perspectiva micropolítica, biopolítica e necropolítica procurando permanentemente um entendimento acerca dessa pergunta: como viver juntos encontrando formas de produção de potência das subjetividades com espaço para as diferenças e não para a afirmação do mesmo? Quais dinâmicas de circulação de poder viabilizariam essa perspectiva? 

Questões velhas que são reconvocadas com muita força nos dias de hoje, e isso não é uma escrita retórica para projetos: é sim, um incômodo na carne que vem se dando, não com o neofascismo nesse fenômeno mundial da direita, mas com o circuito da arte, da pequena esquerda. 

Náusea, literalmente é o que sinto ao encontrar com os sufocamentos da diferença, pela instauração de modismos curatoriais formativos e de circuito. A pequena esquerda que construiu uma “contracultura” na cidade de Fortaleza reivindicando espaços com belos discursos de luta, agora defende seus lugares com fazeres viciados suportados em discursos filosóficos que fazem moda falando, paradoxalmente, sobre liberdade, potencialidades, políticas públicas e coisas assim. E é essa náusea que me faz re-ver as relações e refinar as escolhas de onde e com quem quero estar. 

E não, não quero ser curadora, tampouco desejo os cargos de administração ou produção das galinhas com seus ovos-postos. Eu sou artista e docente. E não, não faço questão de ganhar grande espaço no circuito. Mas quero o direito de existir, ainda que seja em circuito pequeno, mas existir. Quero parar de formar artistas e colaborar com seus processos de criação que nunca terão espaço por melhores que sejam. Tampouco me interessa ensiná-los a usar os mesmos mecanismos de usurpação micropolítica que utilizam os donos dos portões do circuito artístico-cultural.  Vale ainda lembrar que essas pessoas, as dos postos, a pseudo contra-cultura alencarina, pulverizaram a formação em arte, sem no entanto parecer interessar-se em pensar a inserção desses alunos (e logo artistas), sobre as quais se criaram seus postos de administração, docência, produção e uma platéia “entendida” para seus festivais. E aqui cabe uma série de questões entorno dos privilégios de quem vem ocupando esses lugares, sejam privilégios sociais ou afetivos que os levaram a estar nesse lugar, mas que não me pareceram válidos gastar tempo por agora.

Essa náusea também me fez produzir estratégias artísticas e de modos de vida. No campo artístico, talvez eu devesse vomitar sobre sensores de acidez ou umidade, ao som de música generativa, nua, com umas luzes tendendo ao verde ou fluorescentes. Mas não quero. É mais barato p’ra mim, mas meu pensamento é radical (no sentido de raiz), radical o suficiente para encontrar minhas questões em muitos lugares sem necessariamente forçar-me adepta dessa ou aquela moda curatorial. 

A pergunta acerca de “como viver juntos” foi durante todos esses anos desenvolvida a partir da marionete e da dança (e da tecnologia). Os sistemas de criação com os quais atuo e a metodologia de condução de processos de criação que manejo passaram sempre pela questão política, no intuito de compor trabalhos e formar pessoas em arte contemporânea. Talvez valha afinar minimamente o entendimento, dizendo sobre arte contemporânea, não tratar-se de um código formal (vícios curatoriais), mas sobretudo aspectos relativos à (co)autora de uma investigação de artista. No âmbito das artes da cena, onde quase sempre o corpo e a coletividade estão implicados, todas as minhas apostas são de que esse movimento de investigação e criação só se possibilitam quando há o desenvolvimento do aspecto alocêntrico, fator fundante do que chamo de olhar de comunidade. O olhar de comunidade exige compreender-se parte de um todo interelacionado. É a estratégia que viabiliza ao artista gerir a cena que integra, a partir de dentro, mas entendendo o todo compositivo de que é parte, no qual referência sua participação na coletividade que partilha.[coletividade tomada aqui como: espaço, matéria, outros artistas cênicos, luz, sons, tudo entorno]. Assim, o olhar de comunidade é entendido, aqui, como um dado cênico, um dado de desenvolvimento técnico do dançarino, mas mais que tudo, um aspecto relativo à coletividade de vida e de atuação no circuito, porque esse entendimento não é polarizado. Uma vez desenvolvido, ele co-habita todas as instâncias.

Mas essa náusea… ela me tem impulsionado a caminhar ainda mais para a matéria e para o orgânico não-humano. Quero pensar com eles como se organizam a partir de materialidades - de fisicalidades ou de quimicalidades. A matéria possui suas próprias regras e ela nos cobra a escuta necessária para nos relacionarmos com ela. Senão ela parte. Rasga. A planta morre. A matéria como diálogo me apareceu com a marionete que, provavelmente, quem agora lê este escrito, conhece não mais que o clichê dessa linguagem, mas acredite, ela pode ser muito radical como pensamento sociológico-e-filosófico e como forma artística. E eu gostava justamente quando a Claire Heggen falava de sua potência formativa, a da matéria, para o artista da cena, por sua incapacidade de ceder além de suas características físico-químicas metaestáveis de constituição, convocando escuta na relação.  Da marionete eu voltei pra dança, porque é no campo expandido de pensamento que ela produz, onde aprofundo meus entendimentos políticos e compositivos. Mas a dança é antropocentrada, na maioria das vezes. Mesmo os “bem intencionados” ou de grande pensamento ou empoderamento intelectual. E eu, construo minha visão de mundo a partir de um lugar Simondoneano de deslocamento do antropocentrismo, assumindo as individuações como metaestabilidades de diferentes ordens e não somente humanas. Essa perspectiva me soou coerente, vindo eu de uma hibridação entre artes da marionete e dança (e tecnologia), campos nos quais matéria e movimento são fundamentos da constituição e leitura de dinâmicas de relação (de poder….).

Retomo: “Mas essa náusea… ela me tem impulsionado a caminhar ainda mais para a matéria e para o orgânico não-humano.”, sendo o orgânico não-humano um projeto para um segundo momento. Para agora, comecei a pesquisar o que venho chamando de CRIATURAS e os COREOGRAFISMOS COLETIVOS, que incluem: os softs robôs, os robôs de enxame, mecanismo Theo Jansen e a MOLpA (mobilidade de objetos leves por ar). Sou artista parceira do Laboratório de Computação Física - LCF da Universidade Federal do Ceará – UFC, onde recém comecei a pesquisa, estruturando direções para seu desenvolvimento. As CRIATURAS me interessam justamente para pensar a coletividade a partir das relações produzidas entre matéria e movimento. Os robôs de enxame (swarm robot) aportam uma perspectiva acerca de como indivíduos produzem a partir de parâmetros poucos, um significativo efeito coletivo. Surgem inspirados nas características de animais (insetos, pássaros) que estabelecem grupos e que agem em conjunto para realizar tarefas complexas, produzidas por interações entre o ambiente e os pares, interações parametrizadas por seus “algorítimos” biológicos constitutivos.

Esse processo me lembra imediatamente a perspectiva apresentada por von Uexkul. Ele desenvolve a noção de Umwelt, como um ambiente que se pensa a partir do ser vivo em questão, ambiente tomado a partir da estruturação que realiza esse ser, em virtude de sua estrutura específica, estrutura (perceptiva-interativa) que nomeou de “mundo-próprio”. Ele narra vida e morte do carrapato, que possui poucos afetos, variando entre reproduzir-se e alimentar-se. O animal é cego, surdo e sem paladar, guiando-se apenas por um olfato que identifica as emanações de ácido butírico que se desprende da pele dos mamíferos; um sentido térmico; e outro, tátil, para identificar os animais de temperatura constante que lhes interessam e o local de fluxo sanguíneo. Um espaço qualquer, se conforma, portanto, de modo muito diferente para mim, para o carrapato ou para uma borboleta.

Hubert Godard, pesquisador-referência da dança, nos lembra que nem mesmo entre os humanos podemos falar de um mesmo funcionamento perceptivo, constituindo um dos aspecto dos processos de subjetivações distintas, as diferentes estruturas aestésicas de cada pessoa. E de Godard, volto a conversar com Simondon para estender essas diferenças paramétricas de existência como um dado não somente humano ou biológico, mas também da matéria.

As percepções e interações não são iguais. 

O mundo não é igual para cada um e como, então estabelecemos coletivos e comuns, sem afundar em relativismos?

Minha intuição aponta que, se nos entendemos partes de um sistema (não somente antropocêntrico, mas mesmo restrito a ele), se nos percebemos coletivo e desenvolvemos o gesto de agir a partir não apenas de si, mas da compreensão de sua interferência no todo, talvez possamos avançar um pouco mais na constituição de outras coletividades humanas. Porque minha experiência de vários anos com aulas de criação me diz que não são somente as aulas de teoria que produzem novos olhares. Novos olhares se produzem sobretudo na experiência do corpo (quisera eu que a fala resolvesse….). E por isso tenho atuado na produção dessas experiências, seja com instalações, seja no acompanhamento de processos de criação, seja como professora: porque acho que exercitar estar numa coletividade com diferentes, mesmo sendo no campo da arte, mobiliza a mesma estrutura humana que abre a chance de respeitar o outro na sua diferença nos demais âmbitos. Viabiliza pensar sobre o direito de existência de si E DO OUTRO, como negro, LGBTQ, mulher, etc, suas nuances, seus (des)previlégios coletivos. Habilita ir para além dos discursos cheios de moda e vazios de prática, por encontrarem ancoro na experiência da carne, fazendo a constituição de discursos simbólicas mais coerentes com práticas porque se perfizeram respaldadas na matéria efetiva.

Estudo da instalação:

A ideia que existe atrás da realização de uma obra é que se trata de um longo e tortuoso caminho, no qual a única coisa que pode nos livrar do fracasso não é o sucesso, mas uma certa sabedoria sobre você mesmo. Se consegues entender a ti mesmo dentro desse turbilhão de coisas, perdoar as tuas próprias limitações ou perdoar as dos outros, então, aí não há nenhuma possibilidade de fracassar com teu próprio mundo". Raúl Zurita

Essa é uma linha de desejo poético. Nasceu da percepção de que tornar leve era uma característica que recorria. Compor com o vento... dialogar com gravidade.... Esse espaço foi reservado para o cartografar e partilhar percurso de algum dessas idéias,  quando alguma delas seja poesia da matéria.