MOLpA #num1

Mobilidade de Objetos Leves por Ar

(AsCRIATURAS e os coreografismos coletivos)

[projeto]

apresentação

“Pedras sonhando pó na mina

Pedras sonhando com britadeiras 

Cada ser tem sonhos a sua maneira”

Ney Mato Grosso

 

AsCRIATURAS e os coreografismos coletivos é como venho chamando em meu trabalho, uma dinâmica de pensamento-e-práticas calcadas numa perspectiva de deslocamento do homem como centro de todas as relações, entendendo as individuações de vivos e não-vivos como metaestabilizações de parametrizações distintas de construtura de cada ser. Esse lugar de ver, tece o entendimento de um olhar sistêmico de co-habitação que quer chegar a desenhar dispositivos de pensar/experimentar/desenvolver - no humano - o olhar de comunidade como uma aposta de condição de uma perceptiva-política para a construção de uma coletividade que poderia existir-se potente em coletividade, na aposta das diferenças.

Como viver juntos?

 

Essa pergunta que transita aqui e ali no circuito artístico não deixou ainda de persistir e de ser um grande problema em minhas investigações docente e artística nas linguagens onde ancoro minha hibridação.

Atuo a partir da perspectiva micropolítica, biopolítica, procurando permanentemente um entendimento acerca dessa pergunta: como viver juntos encontrando formas de produção de potência das subjetividades com espaço para as diferenças e não para a afirmação do mesmo? Quais dinâmicas de circulação de poder viabilizariam essa perspectiva? 

Questões velhas que continuam reconvocadas nos dias de hoje, e isso não é uma escrita retórica para projetos: é sim, um incômodo na carne que vem se dando, não com o neofascismo nesse fenômeno mundial da direita, mas com o circuito da arte, da pequena esquerda. 

A pergunta acerca de “como viver juntos” foi durante todos esses anos desenvolvida a partir da marionete e da dança (e da tecnologia). Os sistemas de criação com os quais atuo e a metodologia de condução de processos de criação que manejo passaram sempre pela questão política, no intuito de compor trabalhos e formar pessoas em arte contemporânea. Talvez valha afinar minimamente o entendimento, dizendo sobre arte contemporânea, não tratar-se de um código formal (vícios curatoriais), mas sobretudo aspectos relativos à (co)autora de uma investigação de artista. No âmbito das artes da cena, onde quase sempre o corpo e a coletividade estão implicados, todas as minhas apostas são de que esse movimento de investigação e criação só se possibilitam quando há o desenvolvimento do aspecto alocêntrico, fator fundante do que chamo de olhar de comunidade. O olhar de comunidade exige compreender-se parte de um todo interelacionado. É a estratégia que viabiliza ao artista gerir a cena que integra, a partir de dentro, mas entendendo o todo compositivo de que é parte, no qual referência sua participação na coletividade que partilha.[coletividade tomada aqui como: espaço, matéria, outros artistas cênicos, luz, sons, tudo entorno]. Assim, o olhar de comunidade é entendido, aqui, como um dado cênico, um dado de desenvolvimento técnico do dançarino, mas mais que tudo, um aspecto relativo à coletividade de vida e de atuação no circuito, porque esse entendimento não é polarizado. Uma vez desenvolvido, ele co-habita todas as instâncias.

 Quero pensar com eles como se organizam a partir de materialidades - de fisicalidades ou de quimicalidades. A matéria possui suas próprias regras e ela nos cobra a escuta necessária para nos relacionarmos com ela. Senão ela parte. Rasga. A planta morre. A matéria como diálogo me apareceu com a marionete que, provavelmente, quem agora lê este escrito, conhece não mais que o clichê dessa linguagem, mas acredite, ela pode ser muito radical como pensamento sociológico-e-filosófico e como forma artística. E eu gostava justamente quando a Claire Heggen falava de sua potência formativa, a da matéria, para o artista da cena, por sua incapacidade de ceder além de suas características físico-químicas metaestáveis de constituição, convocando escuta na relação.  Da marionete eu voltei pra dança, porque é no campo expandido de pensamento que ela produz, onde aprofundo meus entendimentos políticos e compositivos. Mas a dança é antropocentrada, na maioria das vezes. Mesmo os “bem intencionados” ou de grande pensamento ou empoderamento intelectual. E eu, construo minha visão de mundo a partir de um lugar Simondoneano de deslocamento do antropocentrismo, assumindo as individuações como metaestabilidades de diferentes ordens e não somente humanas. Essa perspectiva me soou coerente, vindo eu de uma hibridação entre artes da marionete e dança (e tecnologia), campos nos quais matéria e movimento são fundamentos da constituição e leitura de dinâmicas de relação (de poder….).

 

Para agora, comecei a pesquisar o que venho chamando de CRIATURAS e os COREOGRAFISMOS COLETIVOS, que incluem: os softs robôs, os robôs de enxame, mecanismo Theo Jansen e a MOLpA (mobilidade de objetos leves por ar). Sou artista parceira do Laboratório de Computação Física - LCF da Universidade Federal do Ceará – UFC, onde recém comecei a pesquisa, estruturando direções para seu desenvolvimento. As CRIATURAS me interessam justamente para pensar a coletividade a partir das relações produzidas entre matéria e movimento. Os robôs de enxame (swarm robot) aportam uma perspectiva acerca de como indivíduos produzem a partir de parâmetros poucos, um significativo efeito coletivo. Surgem inspirados nas características de animais (insetos, pássaros) que estabelecem grupos e que agem em conjunto para realizar tarefas complexas, produzidas por interações entre o ambiente e os pares, interações parametrizadas por seus “algorítimos” biológicos constitutivos.

Esse processo me lembra imediatamente a perspectiva apresentada por von Uexkul. Ele desenvolve a noção de Umwelt, como um ambiente que se pensa a partir do ser vivo em questão, ambiente tomado a partir da estruturação que realiza esse ser, em virtude de sua estrutura específica, estrutura (perceptiva-interativa) que nomeou de “mundo-próprio”. Ele narra vida e morte do carrapato, que possui poucos afetos, variando entre reproduzir-se e alimentar-se. O animal é cego, surdo e sem paladar, guiando-se apenas por um olfato que identifica as emanações de ácido butírico que se desprende da pele dos mamíferos; um sentido térmico; e outro, tátil, para identificar os animais de temperatura constante que lhes interessam e o local de fluxo sanguíneo. Um espaço qualquer, se conforma, portanto, de modo muito diferente para mim, para o carrapato ou para uma borboleta.

Hubert Godard, pesquisador-referência da dança, nos lembra que nem mesmo entre os humanos podemos falar de um mesmo funcionamento perceptivo, constituindo um dos aspecto dos processos de subjetivações distintas, as diferentes estruturas aestésicas de cada pessoa. E de Godard, volto a conversar com Simondon para estender essas diferenças paramétricas de existência como um dado não somente humano ou biológico, mas também da matéria.

As percepções e interações não são iguais. 

O mundo não é igual para cada um e como, então estabelecemos coletivos e comuns, sem afundar em relativismos?

Minha intuição aponta que, se nos entendemos partes de um sistema (não somente antropocêntrico, mas mesmo restrito a ele), se nos percebemos coletivo e desenvolvemos o gesto de agir a partir não apenas de si, mas da compreensão de sua interferência no todo, talvez possamos avançar um pouco mais na constituição de outras coletividades humanas. Porque minha experiência de vários anos com aulas de criação me diz que não são somente as aulas de teoria que produzem novos olhares. Novos olhares se produzem sobretudo na experiência do corpo (quisera eu que a fala resolvesse….). E por isso tenho atuado na produção dessas experiências, seja com instalações, seja no acompanhamento de processos de criação, seja como professora: porque acho que exercitar estar numa coletividade com diferentes, mesmo sendo no campo da arte, mobiliza a mesma estrutura humana que abre a chance de respeitar o outro na sua diferença nos demais âmbitos. Viabiliza pensar sobre o direito de existência de si E DO OUTRO, como negro, LGBTQ, mulher, etc, suas nuances, seus (des)previlégios coletivos. Habilita ir para além dos discursos cheios de moda e vazios de prática, por encontrarem ancoro na experiência da carne, fazendo a constituição de discursos simbólicas mais coerentes com práticas porque se perfizeram respaldadas na matéria efetiva.

Estudo da instalação: